A União dos Sindicatos de Lisboa (USL/CGTP-IN), em conjunto com a FECTRANS e o Movimento de Utentes dos Serviços Públicos (MUSP), realizou, no Cais do Sodré, uma iniciativa de debate e contacto com a população, com o objectivo de alertar para os problemas que afectam os transportes públicos na região de Lisboa e afirmar a necessidade de uma rede pública, integrada e capaz de responder às necessidades dos trabalhadores e das populações.
A iniciativa incluiu a distribuição de um documento informativo, foram colocadas questões e partilhadas preocupações sobre a oferta, a qualidade e a articulação dos diferentes meios de transporte.
O direito à mobilidade tem de ser garantido
Na sua intervenção, João Coelho, coordenador da USL, sublinhou que o direito à mobilidade está cada vez mais condicionado pelas dificuldades sentidas diariamente por milhares de pessoas. O aumento dos preços da habitação empurra muitas famílias para zonas cada vez mais afastadas de Lisboa e dos seus locais de trabalho, tornando os transportes públicos indispensáveis.
A falta de barcos, comboios e autocarros, as supressões de serviços e a reduzida oferta à noite, aos fins de semana e nos horários destinados aos trabalhadores por turnos agravam os tempos de deslocação e dificultam a conciliação entre o trabalho, a vida familiar e pessoal.
Para a USL, é necessário reforçar a oferta, melhorar a qualidade e a fiabilidade do serviço e garantir a articulação entre os diferentes operadores. Uma resposta efectiva às necessidades da população exige transportes públicos assentes em empresas públicas, coordenadas entre si e orientadas para o interesse público, e não para a maximização do lucro.
Mais investimento público e defesa da ferrovia
O representante da CGTP-IN no Conselho de Obras Públicas denunciou o desinvestimento acumulado nos transportes públicos, em particular no sector ferroviário, e alertou para as consequências da intenção de subconcessionar linhas urbanas da CP a operadores privados.
Retirar à CP linhas urbanas mais rentáveis, como as de Sintra e de Cascais, poderá reduzir a sua capacidade financeira e comprometer a lógica de solidariedade entre regiões que deve orientar o serviço ferroviário nacional. A defesa de uma ferrovia integrada é, por isso, fundamental para assegurar um serviço público que responda às necessidades de todo o País.
Miguel Rato, do MUSP, destacou também as consequências do encerramento da Sorefame, na Amadora, empresa de fabrico de material circulante, que contribuiu para aumentar a dependência externa do País neste domínio. Defendeu o desenvolvimento dos transportes públicos como factor essencial para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e combater as alterações climáticas.
Valorizar os trabalhadores e garantir a manutenção
Os baixos salários levam à falta de trabalhadores, que é evidente tanto na operação como na manutenção, questões que estiveram igualmente em destaque nas intervenções de Helena Gomes, do SIMAMEVIP, e de Manuel Leal, do STRUP. Foi salientado que a carência de profissionais e o recurso à externalização de serviços levantam sérias preocupações quanto à segurança, à qualidade e à continuidade da prestação dos serviços.
Os intervenientes alertaram para a importância de assegurar equipas suficientes, trabalhadores qualificados e manutenção adequada, recordando que a segurança dos transportes públicos não pode ser dissociada das condições de trabalho e da valorização dos profissionais, para não se verificarem as avarias constantes no transporte fluvial, mas também ao nível da CARRIS. A externalização não garante segurança; o trágico acidente no elevador da Glória é um exemplo desta externalização.
Transportes ao serviço da população, não do lucro
José Manuel, da FECTRANS, abordou o modelo de funcionamento da Fertagus, operador privado que utiliza uma infraestrutura pública e comboios cedidos pela CP. Na sua intervenção, questionou o modelo de financiamento e compensações associado à operação e defendeu a necessidade de avaliar a utilização dos recursos públicos e o interesse colectivo.
Alertou ainda para os problemas de articulação entre a Infraestruturas de Portugal (IP) e a CP, nomeadamente na comunicação com os utentes e na gestão e manutenção da rede ferroviária, defendendo uma ferrovia mais integrada.
A necessidade de caminhar para a gratuitidade do passe intermodal, acompanhada do indispensável reforço da oferta, foi também sublinhada como objectivo para garantir o acesso aos transportes públicos e promover maior mobilidade.
A iniciativa promovida pela USL, FECTRANS e MUSP reafirmou a importância de uma política de transportes que responda às necessidades da população, assegure o direito à mobilidade, valorize os trabalhadores e contribua para um desenvolvimento mais sustentável.
Mais transportes públicos, mais qualidade, melhor articulação e empresas públicas ao serviço da população!